22 Mai 2012

A violência doméstica – Por Anonimo { Mães que honram o rolê}

Post by Kira at 00:48 on Mães que honram o rolê

Essa história para mim é MUITO especial. Uma conhecida, pediu para escrever um texto em homenagem a mãe, sobre a mãe, e a história dessa família. Família no qual eu já conhecia, todas as pessoas desse texto eu conheço, e sei um pouco de sua história. Mas NUNCA pude imaginar algo assim. Eu fiquei emocionada, pela história, pela garra dos três ” heróis” nesse texto e como uma família pode ser unida! Boa leitura!

* * *

Minha mãe tinha apenas nove anos quando perdeu o pai. Para piorar, a morte dele foi por suicídio. Fico imaginando como fica a cabeça de uma criança ao saber que o pai tirou a própria vida. Ela ficou mal o suficiente para passar muitos anos atrás de mais informações, chegando a ter problemas de saúde por conta disso. Saiu de Minas Gerais para estudar em Campinas e foi aqui que conheceu meu pai, militante de partido comunista, metalúrgico. Ela sempre me disse que ele era incrível, que de longe via meu pai entregando os jornais do partido. O descrevia como se fosse o homem mais carinhoso, delicado e protetor do mundo, sendo tão reais essas características que fizeram com que ela se entregasse por completo.
Ela não teve filhos muito nova, seu primeiro foi por volta dos trinta e um quando as coisas começaram a se transformar. O homem protetor com quem morava passou a chegar bêbado em casa quase sempre. O maior problema do alcoolismo de meu pai era que ele se tornava muito violento quando estava sob o efeito da bebida. Minha mãe teve que abandonar um emprego muito bom para não deixar os filhos sozinhos com o pai alcoólatra. Entre campanhas, meu pai ganhou muito dinheiro e torrou tudo com bebidas, jantares, festas…as traições eram escancaradas o suficiente para minha mãe jurar que nunca mais deitaria na mesma cama que ele. Foram cerca de vinte anos sofrendo violência doméstica, humilhações, ameaças de morte vindas do tal homem perfeito.

Quando eu tinha meus doze anos toda a violência de meu pai passou a interferir diretamente na minha saúde. Desenvolvi transtornos alimentares e aos meus quinze anos fiz minha mãe passar por um episódio extremamente doloroso: a tentativa de suicídio da filha. Não consigo imaginar a dor que sentiu ao ver isso se repetindo com sua filha. Meu irmão me encontrou desacordada e eles me levaram para o hospital onde fiquei internada por três semanas. Ela dormia toda torta na cadeira do quarto, me visitava todos os dias, sem falta.
Continuamos mais dois anos morando na casa do meu pai. É aquela velha história da mulher que sofre agressão e depende financeiramente do marido: descobre que a família e amigos não ajudam como imaginava, se afastam inclusive. Ao pedir ajuda à polícia, o que vem são só humilhações, quase como piadas. Eu mesma liguei para a polícia em momentos tensos dentro de casa e além de contarem ao meu pai que quem fez a denúncia foi a filha, o máximo que houve de retorno foi o spray de pimenta na cara dele quando a viatura foi até minha casa.

Foi então que após dois anos meu irmão e minha mãe se organizaram para podermos abandoná-lo. Lembro-me muito bem do dia do meu aniversário de 17 anos: havia um bolo no apartamento novo que eles alugaram, foi emocionante. Minha mãe disse que aquele seria meu presente de aniversário e foi o mais incrível que já ganhei. Acredito que fiquei em stand-by durante um bom tempo, desacreditando que aquilo estava mesmo acontecendo. A mudança foi feita as pressas e escondido do meu pai. Planejamos tudo para que quando ele chegasse nós já tivéssemos saído levando todas as nossas coisas, mas ele acabou chegando em casa no meio do processo de colocar os móveis na van. Eu não estava lá, minha mãe disse que ele apenas perguntou “vocês estão indo embora, né?”

Moramos eu, meu irmão, nossa mãe e dois gatos durante alguns anos. As dificuldades financeiras foram grandes, mas sobrevivemos. Hoje meu irmão não mora mais conosco, nem os dois gatos, somos só nós duas. Ela sofreu bastante com a mudança do filho, mas como vive repetindo, meu namorado substitui um pouco essa falta que ela sente.
Resolvi contar essa história porque para mim dia das mães é muito além do que a maioria pensa, apesar de que cada um tem sua história, tornando esse dia especial à sua maneira. Penso na minha mãe como a mulher mais sensível e ao mesmo tempo mais forte do mundo. Na verdade ela é uma mulher incrível junto de muitas outras que passam por situações tão piores quanto.

Obrigada mãe por toda essa força combinada com tanto carinho! Tenho certeza de que se a história de nós três não fosse tão dura, não seríamos tão felizes agora.

4 Responses to "A violência doméstica – Por Anonimo { Mães que honram o rolê}" | Add yours »

  1. Mai 22, 2012 @ 00:54 {}

    Lindo mesmo! E ela tbm escreve mto bem… parabéns peço texto e pela história!

    x)

  2. Mai 22, 2012 @ 01:26 {}

    Emocionate ….

    Um texto digno de ser publicado como uma mensagem de dia das mães e lição de vida para qualquer pessoa!

    Parabéns para a mãe e filha, duas guerreiras e vitoriosas!

    beijos, Má
    monmaternite.com

  3. aline rezende
    Mai 22, 2012 @ 14:20 {}

    sou mais uma que foi criada com uma família sofrendo por causa do álcool. e sofre consequências até hoje. dose, né? é uma merda na verdade.
    que todas as mulheres, mães e filhos tenham força suficiente para recomeçar!

  4. Rachel
    Mai 22, 2012 @ 17:26 {}

    Também me lembrou uma história de família bem parecida. O triste é percebermos quantas pessoas sofrem desse mal…